Monday, April 14, 2008

Guarda Minha Alma

A pedido de Luci que eu não sei se é A Luci ou não, aqui vai a letra de "Guarda minha alma" que muita gente tem gostado bastante. eu gosto, mas acho que há um ou dois momentos na letra que poderiam ter sido mais bem resolvidos. A música da Olívia é linda!!!!
acho que raras vezes fui tão perverso como nesta letra, mas, também acho que todos nós já sentimos a perversidade que se visualiza nesta letra.
Oh. Luci, se voltar aqui, deixe contacto!

GUARDA MINHA ALMA
(Tiago Torres da Silva/ Olivia Byington)

Guarda minha alma um só instante
eu tenho de ir ali
preciso de ir ali mais adiante
ali longe de ti
ali onde esqueci
de ser que nunca fui quarto-minguante

esqueci que o meu suor também é água
e que a respiração também é vento
e que essa mão que afaga
poderá reter a mágoa
de todo um universo em sofrimento

quando o corpo pede
o que um outro corpo tem
mas a alma bão cede
por estar presa a alguém
eu tenho de pedir
oh, meu amor, me aguarde
que se eu deixar de ir
depois pode ser tarde

guarda minha alma um só instante
não sei o que senti
só sei que descobri que ser amante
é ser um bem-te-vi
que voa por aí
em busca de um lugar que é tão distante

esqueci que a minha voz também é canto
e que o meu coração é um segredo
e que o teu acalanto
pode evitar o pranto
da alma que eu te dei morta de medo

quando o corpo pede
o que um outro corpo tem
mas a alma não cede
por estar presa alguém
eu tenho de pedir
oh, meu amor, me aguarde
que se eu deixar de ir
depois pode ser tarde

Thursday, January 31, 2008

OLIVIA BYINGTON NO TEATRO MUNDIAL


A cantora brasileira Olivia Byington está de volta a Portugal para uma série de espectáculos no Teatro Mundial (14 a 17 e 21 a 24 de Fevereiro).
o espectáculo que serve de lançamento para o disco que eu tive a felicidade de fazer com ela traz, além das nossas parcerias, muitas belas músicas de Caetano Veloso, Tom Jobim, Egberto Gismonti, sambas que fizeram sucesso na voz de Aracy de Almeida. Tem as maravilhosas letras de Chico Buarque, Geraldo Carneiro, Cacaso... Tem muitas histórias que Olivia conta tornando o público seu cúmplice.
eu já vi o espectáculo umas sete vezes no Rio de Janeiro e conto ir todas as noites aqui em Lisboa e não é por causa das minhas letras. é que o espectáculo é mesmo emocionante. A Olivia inventou uma nova maneira de fazer shows, muito mais ´próxima do público, por isso, chamou ao espectáculo: "A vida é perto"! e é uma emoção estar tão perto dela e, no fim do show, sentirmos todos que ganhámos uma amiga...
... para toda a vida!
é imperdível!

Sunday, November 18, 2007

PRA NÃO TER MEDO

Preparando já o final do ano porque vou estar fora até lá, quero agradecer a todos os cantores que cantaram as letras que escrevi. A todos os parceiros que, comigo, fizeram este punhado de canções de que muito me orgulho. Há quem já não esteja entre nós. Há quem esteja. A todos estou muito grato e por isso não me canso de os louvar.
àqueles que aqui e noutros locais da net destilam ódios viscerais contra mim, agradeço também. muitas vezes, nas vossas críticas, encontrei motivo para pensar no meu posicionamento no mundo. Mas, para o ano que começa, peço-vos que assinem as mensagens. O anonimato incomoda-me mais do que qualquer crítica.
Hoje, publico uma letra que escrevi para uma belíssima música do José peixoto que é dos grandes presentes que a vida me trouxe. Por sorte, ainda, a canção foi cantada pela fabulosa Maria João no disco "Pele" que fizemos entre os três. e mais não digo, porque esta letra fala por si. Feliz 2008. sejam felizes! eu vou fazer por isso!

PRA NÃO TER MEDO
(Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: José Peixoto)

sabes de que é feito o silêncio?
sabes de que é feita a saudade?
onde é que nasce a voz do vento?
porque é que esta dor me invade

(porquê o silêncio? Porquê a saudade?

quando se apaga uma estrela
diz-me quem veste um véu de luto?
quem é que vai chorar por ela?
quem se vai calar um minuto?

meu amor, sabes que há um livro
que ninguém é capaz de ler?
só se vive
por desejo
de o escrever

nunca de mim saberei
se algum dia lá escrevi

a saudade um dia contou-me
que a minha vida é um segredo
a que eu escolhi dar o teu nome
pra não viver morta de medo

(porquê a saudade? porquê o silêncio?)

meu amor, sabes que há um livro
que ninguém é capaz de ler?
só se vive
por desejo
de o escrever

nunca de mim saberei
se algum dia lá escrevi

Sunday, August 26, 2007

regresso


aqui estou de volta. durante a minha ausência, fartei-me de escrever para montanhas de gente. tenho pena de não estar a partilhar convosco todas essas coisas extraordinárias que me têm vindo a acontecer como a aventura com a Maria João, o deslumbramento com os SAL ou o cd em parceria com a Olivia Byington, cantora brasileira que muito aprecio e que me deu o prazerzaço de fazermos um disco em conjunto. A Olivia é uma cantora com uma longa história ao lado dos grandes da MPB - Tom Jobim, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Djavan, são alguns dos muitos que trabalharam com a Olivia no passado. Ter feito este disco com ela é uma surpresa, um tesouro, uma alegria, e uma enorme gratidão à vida.
No final, acabei por ouvir as minhas palavras nas vozes abençoadas de Maria Bethânia (ainda nem acredito!) e Seu Jorge porque a Olivia os convidou para partilharem o canto neste disco. Hoje, ponho aqui a letra da primeira canção que fiz em parceria com ela. Chama-se "Areias do Leblon"

AREIAS DO LEBLON
(Letra: tiago Torres da Silva/ Música: Olivia Byington)

meu amor por você é uma ideia
que eu tive ao deslizar os pés na areia
do Leblon
escutando uma voz na maré cheia
não sei se uma sereia
não sei se um sonho bom
só sei que a noite ali quase clareia
quando eu repito o som
do nome que nos meus lábios passeia
desde que um grão de areia
entrou no meu batôn
e me pintou na boca a lua cheia
me concedendo o dom
de eu mesma ser o astro que incendeia
por baixo do edredon
o amor que começou por ser ideia
e agora é marca de batôn
que nos teus lábios serpenteia
sempre que eu deslizo os pés na areia
do leblon

Wednesday, April 04, 2007

atelier de escrita para canções

Vou estar na Sociedade Portuguesa de Autores, a partir do próximo dia 16 de Abril, das 15h30 às 19h30, a orientar um Atelier de escrita para canções. A duração é de duas semanas e, no último dia (27 de Abril) poder-se-ão ouvir algumas das letras que escrevemos durante esse tempo.

O atelier desenvolver-se-á nas Segundas, Quartas e Sextas-Feiras (na segunda semana, a sessão de quarta passa para quinta-feira por causa do feriado de 25 de Abril)

Espero que apareçam!

*

Inscrições na SPA
Sector de Actividades Culturais e Imagem – Av. Duque de Loulé, 31
Tel. 21 359 44 28 - e-mail: gabinete.cultural@spautores.pt

Friday, June 30, 2006

Amália


Como toda a gente sabe, a minha admiração pela Amália não tem limites. Neste momento, num site argentino que, pela quantidade de pedidos que os cantores e os clubes de fãs incluem na sua informação, deve ter alguma importância decorre uma votação do cantor/a mais amado no mundo. De entre as mulheres a Amália está em 19º lugar de entre setecentas e tal. Mesmo assim, eu acho que ela merece mais, por isso sugiro que vão a www.votolatino.com.ar, cliquem em intérpretes femininos na letra a e depois é só clicar no nome da Amália Rodriguez (é com Z que vem lá) e em seguida clicar em "votar por Amália Rodriguez". É mais uma forma de perpetuar a memória da que, na minha opinião, foi a maior cantora de música popular. Obrigado!

Wednesday, May 03, 2006

TIMBÓ

Enquanto me preparo para me dedicar ao disco "PELE" do José Peixoto e da Maria João para o qual tive o privilégio de escrever grande parte das letras, não queria deixar de anunciar aqui que, a propósito do meu novo livro que já está à venda e se chama "TIMBÓ - aventuras de um português no Brasil", criei um outro blog onde publico excertos do livro com imagens apropriadas que não vêm no livro e onde pretendo dialogar com toda a gente que alguma vez esteve enamorada do Brasil. Eu estou há muitos anos e este meu livro é uma declaração de amor a esse país maravilhoso, mas também uma declaração de amor a este Portugal maravilhoso que me viu nascer. Vão lá bisbilhotar. O endereço é www.timbo-brasil.blogspot.com

Wednesday, March 22, 2006

PUS A ALMA NOS TEUS DENTES


Há coisas que acontecem sem que a gente saiba bem porquê. Partidas muito agradáveis que o destino nos prega. Foi assim que, de repente, me vi a escrever para a garganta incomparável da Adelaide Ferreira. Escrevi algumas letras tentando descobrir o que de mim mais podia tocar a alma daquela mulher sensível, atrevida, feminina, ousada... De todas as canções que fizemos, a que me agrada mais chama-se "Pus a alma nos teus dentes" e nela tive por parceiro o Rui Veloso. Dpois de algumas canções que fizémos juntos e que ainda não viram a luz do dia, esta foi a primeira parceria Tiago/Rui que chegou aos ouvidos das pessoas. Espero que gostem!

PUS A ALMA NOS TEUS DENTES
(Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Rui Veloso)

O meu corpo é um caminho
que só eu sei onde vai
na busca do teu carinho
ora balança, ora cai

Quando repousas as ancas
sobre a minha pele lisa
o suspiro que me arrancas
é a alma feita em brisa.
Não deixes que a noite escura
dê ao nosso amor um fim
porque me sinto mais pura
quando estás dentro de mim

O meu corpo é um caminho
que só eu sei onde vai
na busca do teu carinho
ora balança, ora cai

Fico ali adormecida
numa alegria tamanha
e volto outra vez à vida
porque a tua barba arranha.
Quando me beijas os seios
com os teus lábios frementes
vê os meus olhos - fechei-os,
pus a alma nos teus dentes

O meu corpo é um caminho
que só eu sei onde vai
na busca do teu carinho
ora balança, ora cai

Friday, February 24, 2006

POR DENTRO DE MIM


Tem toda a razão quem anda chateado comigo por falta de assiduidade aqui ao meu blog, mas é que estive quatro meses no Brasil a escrever um livro, acabei por escrever dois e estive até ontem a corrigir e corrigir e corrigir. O livro chamar-se-á "TIMBÓ - aventuras de um português no Brasil" e vai estar nas lojas daqui a mais ou menos cinco semanas. Eu estou muito satisfeito com ele.
Entretanto, fiz muitas canções, muita gente gravou os meus poemas. Para breve prevê-se a saída de muitos discos com letras minhas. A saber: Adelaide Ferreira (28 de Fevereiro), Jacinta (6 de Março), Maria João (sim, a do jazz) e José`Peixoto, (10 de Abril), Ana Lins (Abril), Maria João Quadros (S/ data prevista), Joana amendoeira (s/ data prevista), Pedro Moutinho (s/ data prevista) e Olivia Byington (s/ data prevista).
Retorno ao convívio bloguístico com uma letra que escrevi para a Mafalda Arnauth que é uma artista que eu sigo de loge há muitos, muitos anos, dese o tempo em que ela a todos encantava no restaurante "número 1" especialmente quando cantava "Hortelã Mourisca" uma canção infelizmente pouco conhecida do repertório da Amália. A letra "Por dentro de mim" ganhou música pelas mãos do violonista Diogo Clemente, um jovem talento de quem muito se ouvirá falar, de certeza!

POR DENTRO DE MIM
(Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Diogo Clemente)

Pus uma primavera nos teus olhos
Que em verde acordaram a manhã
Foi nos ramos dos teus braços
Que eu vi a flor do mar dentro de mim
No ninho dos teus beijos
Um pássaro de fogo voou, dentro de mim
E no seu bater de asas
Espalhou do fogo as brasas
Testemunhas do lugar de onde eu vim
E querem que te aqueças dentro de mim.

Vejo o sol a nascer do teu sorriso
E agarro-me aos teus braços de setim
Um verão que sem aviso
Faz nascer marés dentro de mim
E eu descubro de repente
Um sol em quarto crescente dentro de mim.

Também soubeste ser folha d’Outono
Soubeste adormecer na hora certa
E as folhas mais bonitas
Escolheram cair dentro de mim
E o vento das palavras
Pôs as canções do oceano dentro de mim
Não temas ser Inverno
Porque o beijo mais terno
É aquele que se dá chegado o fim
Qunado tu adormeceres dentro de mim.

Monday, August 29, 2005

UMA CANÇÃO POR ACASO



Há momentos em que parece que tudo o que passámos na vida valeu a pena. Momentos que nos enchem de orgulho e de alegria.
Esta semana foi lançado no Brasil o novo disco do Ney Matogrosso que se chama "Canto em qualquer canto". É um disco ao vivo onde a par da canção que lhe dá título, uma belíssima parceria da Ná Ozzetti com o Itamar Assumpção, e de alguns sucessos da carreira como "bandolero", "amendoim torradinho", "retrato marron" ou "Bamboleo", o Ney faz o favor de regravar o tema "duas nuvens" que já anteriormente gravara no CD do Pedro Jóia e rouba o tema "uma canção por acaso" à criação inexcedível da MARAVILHOSA; ÙNICA; EXTRAORDINÁRIA; ABSOLUTA MÔNICA SALMASO! Se não conhecem descubram depressa porque é uma das mais extraordinárias cantoras de todos os tempos em terras de Vera Cruz.
E o Ney canta esta canção por acaso com uma sensualidade, um vigor que me deixam enternecido, agradecido, comovido! Quem diria que, um dia, ainda acabaria por ser gravado pelo Ney Matogrosso... e já foram quatro canções com letras minhas que viajaram pela garganta dele. Aqui fica "Uma canção por acaso" que, por acaso, o Zeca Baleiro diz que é a minha melhor letra.

UMA CANÇÃO POR ACASO
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Pedro Jóia

Quando te vi pela primeira vez
sem você junto ao meu peito
senti que a paixão desfez
o que o acaso tinha feito

Meu amor não vale a pena
acordar de madrugada
pra beijar uma morena
que pediu pra ser beijada
meu amor não vale a pena
se ela não está acordada

Fico na ânsia de te abandonar
quando o teu corpo se atreve
a num beijo mascarar
de linho o que eu sei ser neve

Meu amor não se incomode
em prestar muita atenção
á mulata que não pode
entregar seu corpo em vão
meu amor não se incomode
que a mulata também não

Quando você se agarra ao meu sono
somos um por um segundo
e dormindo me apaixono
pelo seu sono profundo

Meu amor não tenha medo
de se apaixonar assim
o ciúme é um segredo
que eu guardei dentro de mim
e nós dois um samba-enredo
que ninguém conhece o fim

Wednesday, August 17, 2005

TAMBOR DOS ATEUS


Hoje é o dia de aniversário da Elba Ramalho. E eu aproveito para vos falar um bocadinho dela. A Elba é a melhor pessoa que imaginar se possa. Boa gente, sem estrelismos, dona de uma energia surpreendente e contagiosa e está-se nas tintas para o que dizem dela, por isso, á medida que os anos passam, está cada vez mais bonita, cada vez mais com a cara que corresponde à sua alma. E que Alma é aquela! Foi por isso que escrevi esta letra para ela cantar, porque o meu coração e o coração dela nunca serão ateus. Longa vida a Elba Ramalho! Eu escuto a voz da Elba há décadas. Nunca me atrevi a sonhar que um dia as minhas palavras encontrariam ninho na sua garganta, mas encontraram e eu não tenho gratidão suficiente para tão grande dádiva. Longa vida, longa vida a Elba - voz, vida, liberdade e tudo!

TAMBOR DOS ATEUS

Letra: Tiago Torres da Silva/ Mùsica: Pedro Jóia

Quando sua mão pousou na minha
eu estava certa que tinha
um peito de madrugada
mas depois da sua mão
descobri que o coração
não estava certo de nada

Coração que aprende a bater
pensa que pode esquecer
o som do tambor de Deus
mas quanto mais ele dança
mais dentro dele se cansa
o batuque dos ateus

Quando minha mão pousou na sua
eu me senti linda e nua
feliz da minha nudez
tão feliz que desde então
só penso em pousar a mão
na sua mão outra vez

Meu coração perto de você
escrevendo o que não lê
falando o que não escutou
canta, canta e não afina
mas quando aprende é que ensina
o que ninguém lhe ensinou

Wednesday, July 27, 2005

FADO AO DEUS DARÁ II


Hoje não vou publicar uma letra. Escrevo este post só pra dizer que a gravação ao vivo do espectáculo que a Joana Amendoeira deu no Teatro São Luiz em Novembro passado já saíu em disco e como eu gosto muito da Joana, é absolutamente encantadora e tem os olhos mais lindos que há no fado, não quero deixar de vos lembrar que neste disco está a gravação do "fado ao deus-dará" que escrevi para ela na música do lindíssimo fado isabel do grande Fontes Rocha.
Se quiserem ler o poema, procurem-no mais para baixo que eu publiquei-o no dia em que a Joana fez o dito espectáculo. Estou muito contente com esta gravação. Ah, e se não vos bastar, ouçam um magnífico poema da Fernanda de Castro que é daqueles de arrepiar as pedras da calçada. Não percam!

Tuesday, July 19, 2005

FADO MUDO


começo aqui a desvendar o que será o próximo disco da maria joão quadros. um casamento entre o fado e a riqueza harmónica da música popular brasileira. neste caso, o "fado mudo" foi musicado pela Iara Rennó (na foto), jovem compositora paulista que fez uma música linda para estes versos que poderiam ter acabado num tradicional... mas acabaram na sensibilidade desta novidade que eu aconselho (ela é vocalista dos donazica) e tocados pelo maravilhoso Pedro Jóia. Ele parece que tem um deus em cada dedo. Ah, e a Maria João nunca cantou tão bem como aqui. Esperem um pouco e verão. Os mais afortunados já verão alguns dos temas deste disco nos primeiros concertos que acontecerão no dia 12 de agosto na feira de artesanato do estoril e no dia 13 de agosto na casa da música, no porto. aqui, maria joão quadros dividirá o palco com ney matogrosso, que também me dará a honra de cantar alguns temas que eu escrevi. obrigado à vida! obrigado a Deus! obrigado Maria João! obrigado Iara! Obrigado Ney!

FADO MUDO
(Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Iara Rennó)

Se eu não puder encontrar
um motivo pra cantar
deixo o meu xaile de lado
mas no silêncio que sinto
não sei se choro, se minto
pelas saudades do fado

quando a tristeza vai alta
o fado não me faz falta
mas é ele que em mim chora
e quando o fado acontece
a tristeza então parece
que vem... mas não se demora

se eu esquecer as melodias
os cravos, os mourarias
vê a luz do meu olhar
que mesmo estando calado
no seu silêncio há mais fado
do que o que te posso dar

não sei se o fado se espanta
de eu calar o que em mim canta
quando a tristeza persiste
o que eu sei é que talvez
dentro da minha mudez
haja um fado ainda mais triste...

Monday, June 13, 2005

LISBOA NÃO FOI À ESCOLA



Mais uma vez escrevi as letras da Marcha da Bica que, como já expliquei, são duas. Ontem, tive ainda o privilégio de ser o padrinho da Marcha e de descer a Avenida ao lado da Maria João Quadros. E ainda tive a felicidade de dar à Bica, mais uma vez, o prémio de melhor letra! Graças a Deus!
E nesta marcha que tem música do Joaquim de Brito, de quem ainda vão ouvir falar muito neste blog por ser um músico de primeira água e um ser humano espantoso, fizémos uma homenagem ao poeta Bocage, já que este ano se celebravam não sei quantos anos da morte do poeta. Espero que gostem!
E já agora, e porque esta Marcha fala de liberdade. Aqui fica a minha homenagem ao Àlvaro Cunhal que, como toda a gente sabe, foi adepto de côres muito diversas das minhas mas era um homem com H maiúsculo!

LISBOA NÃO FOI À ESCOLA
Letra: Tiago Torres da Silva/Música: Joaquim de Brito

Quando a Bica foi pra casa
a cidade escureceu
o sol escondeu-se na asa
da gaivota que nasceu
pra queimar num céu em brasa
a saudade que há no céu

Mas quando a Bica adormece
e a cidade anda a rondar
às vezes até parece
que ela quer aqui morar
e a cidade até se esquece
que há mais bairros a cantar

Vamos lá ver como Lisboa reage
se eu lhe mandar um piropo mais picante
arrancado de uma quadra de Bocage
que ele escreveu à mesa de um restaurante
Vamos lá ver se a malícia do poeta
fará corar as pedrinhas da calçada
e então Lisboa que sempre quis ser discreta
escuta o piropo... mas finge não ouvir nada!

Corremos as capelinhas
Santo António e São João
que Lisboa é cá das minhas
quer manter a tradição
de ir aos bairros alfacinhas
comer sardinhas no pão

Mas se a Bica anda perdida
nas esquinas da cidade
vai-se até à Avenida
pra descer a Liberdade
Vai-se até ao fim da vida
entre um fado e uma saudade

Vamos lá ver como Lisboa reage (etc)

Lisboa não foi à escola
não sabe ler nem escrever
mas foi no Café Nicola
que começou a aprender
que a solidão só consola
quem tem medo de viver

Lisboa paga o café
mas não espera pelo troco
teve de o beber em pé
porque o silêncio era pouco
e ela só queria dar fé
à voz de um poeta louco

Vamos lá ver como lisboa reage (etc)

Monday, May 16, 2005

CANÇÃO EM BRAILLE


Há muitos críticos que dizem que a Ná Ozzetti é a maior cantora do Brasil na actualidade porque sintetiza numa só voz o que de melhor têem as grandes cantoras do Brasil. Eu não sei. Não me interessa para nada saber quem é a melhor, o melhor! Como todos sabem, acho que a competição é inimiga da Arte. Seja como for, além de a ter por boa amiga com quem já passei muitos bons e alguns maus momentos nas duas margens do Atlântico, é uma cantora abençoada e, apesar de não ser muito conhecida em Portugal, desejo-vos que a vão descobrir porque ela é um assombro. Tentem ir a www.naozzetti.com.br e descubram uma voz surpreendente. Agora, a Ná acabou de gravar um cd com o mágico André Mehmari onde gravaram pérolas tão preciosas como "Rosa" de Pixinguinha. Mal posso esperar pra ouvir.
Quando falei em maus momentos, estava a lembrar-me de uma vinda da Ná a Portugal cantar a um qualquer encontro de Lusofonia em Serpa onde raras vezes me senti tão envergonhado. A coisa chegou a pontos de a Ná perguntar onde era o camarim e o produtor do espectáculo responder que no contrato ninguém tinha pedido camarim. Um amadorismo e um aproveitamento que são seguramente as piores características que o mundo da música conhece em Portugal. Eu senti-me completamente aflito e tentei remediar o irremediável! Foram momentos de grande angústia!
A Ná deu-me o privilégio de gravar a "Canção em Braille" que eu escrevi para uma música que o Pedro Jóia tinha feito. É uma música tão vigorosa que eu quase lhe encontrava uma textura, daí ao braille foi um passo pequeno. Fala disso mesmo, de ver e não ver, de cantar por não se ver. Parte de um costume que existia no Brasil onde os nordestinos furavam os olhos de um pássar, o assum preto, para ele não fugir para longe das suas casas e assim, partilhar o seu canto triste com os habitantes da moradia. É\um costume horrível que motivou uma das mais belas canções de Luiz Gonzaga e Humberto teixeira e que encontrou versão definitiva no cd ao vivo "GAl FA-TAL" que a Gal Costa gravou no início da décadad de setenta e que se mantém como um dos grandes marcos da sua longa e brilhante carreira.

CANÇÃO EM BRAILLE
Letra: Tiago Torres da Silva/Música: Pedro Jóia

Onde os meus olhos
porque cantam assim?
um assum preto
dentro de mim

mil vezes a sina
do gingar da tua retina
que não vai lembrar
que eu também já fui bailarina

mil vezes o fado
de manter os olhos fechados
só para não ver
a menina do olho errado

quando os teus lábios
na minha mão pousaram
todas as linhas se alongaram

uma carícia
o quebrar de um segredo
deus escondido em cada dedo

onde os meus olhos
porque cantam assim?
um assum preto
dentro de mim

a linha da alma
um destino transparente
lua que se apaga
pra nenhum quarto crescente

és um sol em vão
quando o teu olhar se nega
a ver o sertão
na noite de uma ave cega

quando os teus lábios
nas minhas mãos pousaram
todas as linhas se alongaram

uma carícia
o quebrar de um segredo
deus escondido em cada dedo

Wednesday, March 16, 2005

DEIXO-ME IR ATRÁS DO FADO



Uma jovem fadista radicada em Paris, amiga da maravilhosa fadista Manuela Cavaco que já me deu o privilégio de gravar umas palavras minhas, pediu-me a letra que eu escrevi há muito tempo para o Fado Rosita do genial compositor de fado Joaquim Campos. Fiquei surpreendido de ainda nãoa ter publicado, mas o facto é que estava em falta, por isso cá vai com um grande abraço para Paris.

DEIXO-ME IR ATRÁS DO FADO
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Joaquim Campos (Fado Rosita)

Pede-me agora outro fado
cantado com voz de dar
que pedir não é pecado
o que é pecado é chorar

Buscas notas nas guitarras
quem de nós é que mais chora?
quando a minha mão agarras
já não estou, ai, fui-me embora

Fados negros me pediste
sempre tos tenho cantado
mas ao cantar fico triste
porque vou atrás do fado

Pede-me outro fado antigo
pedido com voz de dar
que no pedir não há perigo
o que é perigoso é chorar

Quando a minha alma agarras
ri que eu sorrio ao teu lado
porque ao ver rir as guitarras
deixo-me ir atrás do fado

Tuesday, March 15, 2005

ATÉ A NOITE ACABAR

O Custódio Castelo é um dos guitarristas que mais me fala ao coração. Tem um não sei quê na ponta dos dedos que logo o reconhecemos quando ouvimos o som da sua guitarra. Não tenho o privilégio de o conhecer. Nunca me foi apresentado, mas eu escuto-o muitas vezes e quase que posso dizer que o conheço só por tão bem me revelar nos sons da sua música.
E, como a vida gosta muito de mim, ofereceu-me uma música que ele em tempos fizera a meias com o Nuno da Camara Pereira para eu letrar.
Fiz-me parceiro antes de lhe apertar a mão, antes de lhe dizer obrigado por toda a música, por todos os sons. Obrigado à vida por me ter feito parceiro por acaso do Custódio. Ah, esquecia-me de dizer que o acaso não existe!

ATÉ A NOITE ACABAR
Letra: Tiago Torres da Silva/ MNúsica: Custódio Castelo e Nuno C. Pereira

Não sei se sou fadista
nem sei bem se o desejo
mas desde que te vi
sei que descobri
as notas de um beijo

Se for dó é na mão
se for ré é na cara
e se for lá então
não tenho perdão
que a escala não pára

Não sei bem se te quero ou se não quero
levo-te a dançar
não és o amor que espero
mas hoje és tu quem eu quero
até a noite acabar

Não tens que dizer sim
eu já conheço as mulheres
pois se te ris pra mim
se me olhas assim
é um beijo que queres

Se for na boca é paixão
se for no seio é pecado
beijar o coração
é a ilusão
de quem canta o fado

Não sei bem se te quero ou se não quero
levo-te a dançar
não és o amor que espero
mas hoje és tu quem eu quero
até a noite acabar

Friday, February 11, 2005

FLECHA


Estou quase a chegar às mil visitas. Quem fôr a visita número mil, deixe a morada que eu tenho um presente para.
Hoje vai uma canção que escrevi sobre uma música tradicional hebraica. uma letra que fala da raça negra, do orgulho africano ligado à mitologia iorubá. engraçado como uma música tão longínqua da áfrica negra e do brasil serviu tão bem um imaginário candomblé. está no "da minha voz" da Né Ladeiras e escolhi esta letra porque estou cheio de saudades do canto da Né. ela é, seguramente, uma das mais belas vozes que já escutei.

FLECHA
Letra: tiago torres da silva/ Música tradicional hebraica

fogo no olhar
iorubá
trago a selva nos braços
ali vais encontrar
o luar
que transforma os pés em passos

iorubá, iorubá
ébano, incenso e ouro
orixá, orixá
búzios o meu tesouro

boca de gengibre
iorubá
sorriso de marfim
as solas dos meus pés
são djembés
que cantam dentro de mim

iorubá, iorubá
ébano, incenso e ouro
orixá, orixá
búzios o meu tesouro

flechas na garganta
iorubá
no sangue uma nação
a pele negra de escrava
esconde a lava
que sai do meu coração

Tuesday, January 18, 2005

A COR DO CANTO


A Daniela Mercury é aquele furacão que toda a gente conhece, mas para lá do show de energia que ela dá em palco, é uma cantora notável, com uma afinação precisa e uma intensidade enorme. Senhora de uma simplicidade imensa e de uma alegria contagiante, deu-me um grande prazer em cantar estes versos que escrevi para ela e cujo título brinca com dois grandes sucessos da sua carreira: "Swing da cor" e "O canto da cidade". Saravá Daniela! Você que é a única cantora que me gravou e que eu não conheço pessoalmente, sói de raspão nos camarins do Pavilhão Atlântico! Muito obrigado!

A COR DO CANTO
Letra: Tiago Torres da Silva/Música: Pedro Jóia

Quando a noite decidir
que me quer por namorada
eu talvez vá -lhe pedir
uma estrela emprestada
que só me deixe dormir
ao chegar a madrugada

Quando a noite se ocultar
sob a minha pele nua
eu vou poder abraçar
todas as mulheres da rua
que em mim hão-de consagrar
a sua nudez à lua

A noite é você
chamando por mim
na luz de um porquê
que não terá fim
A noite sou eu
quando te acalanto
clareando o breu
na cor do meu canto

Quando a noite oferecer
cinco estrelas da alvorada
teremos de as esconder
entre a pele e a madrugada
cinco pedrinhas a arder
dentro de uma mão fechada

E quando a noite der flor
foi porque você se abriu
entre a pele e o cobertor
no momento em que sentiu
que nenhuma voz tem cor
se o amor não a tingiu

A noite é você
chamando por mim
na luz de um porquê
que não terá fim
A noite sou eu
quando te acalanto
clareando o breu
na cor do meu canto

Thursday, January 13, 2005

SOBRE AS ÁGUAS


Cá vamos nós para mais uma música linda que a Pilar fez. Nesta altura, o método que mais usávamos era ela fazer a música e eu colocar uma letra por cima. Mais tarde começámos a fazer o contrário e ainda mais tarde sentimo-nos livres para utilizar os dois métodos. Esta canção acabou por ganhar duas versões, no disco "Não quero saber" e no disco ao vivo em que a Pilar partilhou o palco com a Anamar e a Né Ladeiras. Espero que gostem! Eu gosto! Eu era fã da Pilar muitos anos antes de a conhecer. Assisti à primeira parte fabulosa que ela fez nos concertos da Suzanne Vega, fui vê-la ao Teatro São Luis, ao Garage... Flipei com a versão do primeiro dia do Sérgio Godinho e achava um desperdício tão grande ela andar afastada da música que não descansei enquanto não cheguei a ela. Feliz encontro esse que já rendeu umas dezenas de canções, algumas delas ainda inéditas como "luz da manhã", "canção para Rita Lee" ou "canção em rascunho" e usando as palavras do Zeca "venham mais cinco", neste caso "venham mais mil", mil canções, porque a música e as palavras são o que mais me move.

SOBRE AS ÁGUAS
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Pilar Homem de Melo

Sentada na beira de um cais
olho o infinito, quero mais
há outra vida, outro cais, outra pedra
quem me dera

Rente aos meus pés nús dança o mar
por sobre as águas quero andar
hei-de encontrar-te nas esquinas da cidade
é tão tarde

Sei que te vou reconhecer
rosto perdido na multidão
sei nesse instante também hás-de me ver
na tua mão

Sunday, January 02, 2005

NÃO SEI, MEU AMOR, NÃO SEI


Como todos os anos, neste também tenho alguns desejos. Todos temos as nossas ambições, por menores que sejam. Um dos meus sonhos é concretizar um disco que andamos a sonhar há uns tempos com a fantástica Beatriz da Conceição. Para mim, ela é das poucas fadistas que me põe os cabelos em pé, que me estilhaça a alma, que me faz o que eu espero do fado - desloca-me de mim. No meio deste sonho onde escrevi tantas palavras para que ela cantasse, quero começar o ano com este "Não sei, meu amor, não sei" como homenagem não só à Beatriz mas a todos aqueles que me deram o privilégio de cantar as palavras que escrevo, porque, para mim, as vozes que me cantam são como co-autoras das palavras que eu escrevo porque é para elas que eu escrevo e porque na sua interpretação, elas me revelam significados escondidos... significados que eu apenas pressentia e que se tornam claros ao ouvi-los cantados. Este post, este blog, as minhas palavras são sempre deles, dos que me cantam. A gratidão é o maior dos sentimentos e aquilo que eu mais peço para 2005 é gratidão, gratidão e discernimento. Se todos os tivermos, meu Deus!, o mundo será melhor! Tenham um óptimo 2005 e para si, Beatriz, simbolizando todas as vozes com que a minha poesia se encontrou, muito obrigado! muito obrigado!, muito obrigado!

NÃO SEI,MEU AMOR, NÃO SEI
tiago torres da silva/ fado maria alice


Não sei...meu amor, não sei
se os poemas que cantei
algum dia foram escritos
ao cantar cada palavra
parecia que a inventava
na tragédia dos meus gritos

Cantei poetas ausentes
cantei os versos das gentes
dos bairros com tradição
desde Alfama à Madragoa
a minha voz foi Lisboa
à procura de um pregão

As palavras dos poetas
feitas de emoções secretas
têm que ser reveladas
e só mesmo quem as sofre
é que pode abrir o cofre
onde elas foram trancadas

Por isso é que eu te repito
que gostava de as ter escrito
mas sabendo que as cantei
a minha alma inquieta
também se sente poeta
não sei... meu amor, não sei

Thursday, December 30, 2004

DEUSA MULATA


Cá volto um ano mais velho já que ontem foi o meu aniversário. 35 já cá cantam! E tive um presente de uma grande cantora que ainda não posso revelar mas que me deixou muito feliz ao dar-me a ouvir um novo tema que ela gravou com letra minha. Fiquei muito orgulhoso. Foi realmente o melhor presente de aniversário que eu poderia receber! Fui também ao Speakeasy passar a meia-noite de 28 pra 29 e mais uma vez aplaudir a Joaninha Amendoeira e que bem que ela cantou. Mais dia, menos dia temos novo disco dela! Só boas notícias. E como vamos terminar o ano, deixo a letra de uma canção que fiz com o Chico César em São Paulo e que fala do nascimento da sexta-raça no Brasil, fruto da mistura de tantas raças! Era desta mestiçagem que falava o disco da Né Ladeiras "da minha voz" e este foi o single. Chama-se "Deusa mulata" e sempre que o ouço lembro-me dos momentos ímpares vividos em estúdio para gravar este tema. Tenho saudades da voz da Né! Despeço-me até 2005 com esta deusa, quase como uma oração aos deuses, a todos os deuses para que 2005 seja o primeiro de muitos anos felizes para todos nós. Já que não podemos fazer nada para evitar as catástrofes naturais como o horror que aconteceu noa Ásia, pelo menos façamos tudo para evitar as outras catástrofes! E todas as palavras que eu escrevo pedem paz! E agradecem pela felicidade enorme de poder viver das palavras que escrevo! Onde algumas pessoas vêem vaidade há apenas gratidão. Feliz ano novo!

DEUSA MULATA
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Chico César

Se lembrares o tempo em que fui índia
Vais ouvir o grito de cada fera
Linda linda linda
Linda eu era

Eu era fruto
Era nudez
Era um minuto
Que se desfez
Hoje eu sou luto
Erea uma vez

O que é que a mulata tem no pé?
Candon candon candon candon
candomblé

a surpresa de eu ser branca agora diz-te
do grito que no meu coração flui
triste triste triste
triste eu fui

eu sou saudade
uma quimera
mudei de idade
fiquei quem era
sou a cidade
que não se espera

O que é que a mulata tem no pé?
Candon candon candon candon
candomblé

se tu lembras eu fui negra e fui criança
nos olhos trago um sorriso nagô
dança dança dança
dança eu sou

eu era mão
era senzala
era um irmão
era uma fala
uma canção
que não se cala

O que é que a mulata tem no pé?
Candon candon candon candon
candomblé

e agora que sou índia negra branca
cidade senzala mata
deusa deusa deusa
deusa mulata

eu sou um dia
que vai nascer
avé-Maria
igarapé
sou alegria
muito mulher

O que é que a mulata tem no pé?
Candon candon candon candon
candomblé

Sunday, December 26, 2004

THE END

Bom, acabo com espanto, de ver os comentários ao tema "A meio-caminho" e fiquei estupefacto. É absolutamente público o que eu tenho feito pela carreira da Pilar, muitas vezes contra tudo e contra todos e porque eu disse que uma parceria com ela não era o que eu esperava gera-se uma confusão que só vista! As pessoas adoram conflitos e como tal tentam de tudo para arranjar uma zanga entre mim e a Pilar que não existe. Chamam-me pretensioso, invejoso, paneleiro, queque, mandam-me levar no cú, dizem que as minhas letras são vazias e acham que eu estou contra a Pilar. Meus senhores, é com muita honra que nos últimos anos tenho estado presente em quase todos os momentos da carreira da Pilar. Aliás, tenho sido o motor de muitas das coisas que ela tem feito e isto porque eu trabalho com as pessoas que admiro e estou-me cagando para o sucesso que as pessoas possam ou não ter. Nos momentos em que ninguém acreditou no talento da Pilar, eu estive sempre a puxar um barco que neste país é difícil. Mas a imprensa dá mais espaço à Pilar por ela ter um namorado novo do que por um disco ou um concerto na Aula MAgna e eu fico tristíssimo com isso. Portanto, deixem-se de merdas porque só um ceguinho é que pode suspeitar da admiração enorme e amizade sem fim que tenho pela Pilar. Mas continuo a achar que aquela canção ficou aquém das minhas expectativas, isso é grave?
Ah, gostei bastante de que os comentários ofensivos fossem todos cobardes e por isso anónimos. Eu posso ter um monte de defeitos naquilo que faço, mas dou a cara!
E então, passo a escrever a letra de uma canção que também fiz com a Pilar e que ultrapassou as minhas expectativas. É daquelas que só pode ser cantada com sotaque do Brasil. E um feliz Natal para todos!

THE END
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Pilar Homem de Melo

Eu sei que você me entende
ou que já me entendeu
que procura um happy end
como eu

Mas já tive a minha dose
só que agora dá pra ver
vou viver La vie en rose
com você

Vou talvez te dar meu sangue
cada um dá o que pode
num filme de bang-bang
oh my god

E se os dois já estamos nús
um ensina, o outro aprende
vamos apagar a luz
The end!

Tuesday, December 21, 2004

FEITA PARA DANÇAR



Saíu o novo dos Dazkarieh que pela primeira vez cantam em português. Até aqui cantavam apenas em dazkariano. Agora, com algumas palavras minhas, lá se aventuram ao universo da canção em português. E para mim é absolutamente maravilhoso ver jovens um bocadinho (ou um bocadão) mais novos do que eu a terem a capacidade de pôr de pé um projecto musical tão ambicioso como os Dazkarieh e a tornarem-no viável num país onde é praticamente inviável fazer música. Parabéns Vasco, parabéns Helena, parabéns Ricardo e todos os elementos do grupo.
E quem ouviu a versão que saíu no Blitz não sabe do que este disco é capaz. Remisturado e remasterizado com uma definição muito maior, o álbum ganha um coilorido insuspeitado na primeira versão. E a inclusão de três temas transforma o objecto numa obra de arte que bem merece a edição de luxo em caixa de madeira de um bom gosto irrepreensível. E a Helena está a cantar cada vez melhor! Vá lá, vão à Fnac que os miúdos merecem e é um óptimo presente de natal!

FEITA PARA DANÇAR
Letra: Tiago Torres da Silva/Música: Ricardo Gouveia

Dizem que quem tem esp'rança
algum dia há-de alcançar
mas às vezes já me cansa
este tempo de esperar

É indo devagar
que o longe se torna perto
mas a ânsia de chegar
põe-me o passso mais aberto

Grão a grão a galinha
enche o papo até meio
mas a da vizinha
já o tem cheio

Quem sabe urdir um cesto
também vai fazer cem
e mal faço um gesto
abraço alguém

Dizem que quem tem esp'rança
algum dia há-de alcançar
mas às vezes já me cansa
este tempo de esperar
e descubro por vingança
que fui feita pra dançar
mas se não começa a dança
sou capaz de me zangar
que a rosa já foi criança
mas depressa há-de murchar

Quem semeia ventania
há-de colher temporais
mas eu semeio alegria
pra colher um pouco mais

Thursday, December 16, 2004

A ILHA



Estive a ver uma entrevista da Lena d'Água ao Pedro Rolo Duarte e fico cada vez mais danado com este país. Eu não conheço a Lena por isso estou à vontade para elogiá-la sem que isso pareça bacoco. E digo-vos que a Lena é uma das cantoras para quem eu enquanto poeta mais gostaria de escrever porque ela tem um cuidado com as palavras, com a maneira como as palavras devem ser ditas que raramente se encontra. Para além disso, tem uma voz linda e uma afinação perfeita. Aqui há tempos fui ouvi-la ao HotClube e fiquei fascinado com o bom-gosto (que nem sempre acompanhou a sua carreira) e com a entrega do seu canto.
Espero, sinceramente, que um dia as minhas palavras encontrem a voz da Lena d'Água e, já que as editoras cagaram nos artistas e não têm a gratidão de ajudar quem lhes deu muito dinheiro a ganhar, não haverá por aí ninguém que queira patrocinar um disco à Lena?... E repito que eu não tenho nada a ver com o assunto. Ela anda a cantar Billie Holliday e Elis Regina... Mas será possível que não lhe seja permitido gravar?
No final da entrevista a Lena leu um poema da autoria dela, chamava-se "Não me acordes" . (quem quiser ler está no blog "nos degraus de laura") e esse poema lembrou-me muito um fado que escrevi e que a Tereza Tarouca cantou vezes sem fim. Eu adoro a forma de cantar da Teresinha com quem tive o privilégio de privar e trabalhar durante longos anos e de quem tenho muita saudade porque a voracidade da vida não nos tem juntado nos últimos tempos. É ela que está na fotografia. Ter sido cantado por ela é realmente um privilégio, um prazer imenso! Mas, os filhos da mãe das editoras também não quiseram gravar o disco que preparámos juntos. Não era comercial. Puta que os pariu!
O fado chama-se "A ilha". A ilha é a de São Miguel. Foi lá que escrevi estas palavras duma vez em que fiquei alguns dias trancado naquele pedaço de paraíso porque o aeroporto fechou devido a um abençoado mau tempo.
Ah, este post vai com um abraço para o Pedro Almeida que é absolutamente fanático por este fado.

A ILHA
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Miguel Ramos (Fado Alberto)

Vim aqui morrer e não sabia
mas foi isso, para isso vim aqui
ah, e se eu pudesse morreria
que eu vim aqui morrer e não morri.

Este mar... este mar onde me afundo
é o mar onde à morte eu tinha sido
o que ela tem por ntraz - o Céu!, o Mundo!
vim morrer e talvez tenha morrido

Não, não morri, não fui capaz
mas este foi o sítio que escolhi
para morrer... para morrer em paz
voltei cá uma vez e não morri

Ficaria feliz meu corpo morto
porque aqui tudo é o que antes era
porque atrás do mar num qualquer porto
existe alguém sentado à minha espera

Ai, amor!, não me esperes nesse cais
que eu não sei quem tu és mas sei de ti
e eu queria ficar, não posso mais,
que eu vim aqui morrer e não morri!

Monday, December 13, 2004

AMOR E UMA GUITARRA


O porto ganhou contra o Once caldas! O Castelo Branco beijou o Frota na boca! O Santana demitiu-se! Um sismo abalou o país!
e nada disto me abala! nada disto mexe comigo! não ligo a televisão! não voto! não saio de casa!
já dizia o ary "que povo é este, que povo?" eu acho que isto anda tudo muito chato. ontem vi um bocadinho do saia justa onde estavam a discutir a diferença entre arte e entretenimento. não se chegou a conclusão nenhuma, nem se chegará... mas talvez seja só o tempo que possa separar as águas, talvez arte seja apenas o entretenimento que resiste ao tempo, mais nada. a mim, não me interessa nada saber se o que faço é arte ou deixa de ser, para mim escrever é tão urgente que eu tenho de o fazer independentemente do retorno que possa ter. se me dissessem que respirar era entretenimento alguyém deixaria de respirar?
e qual é o problema do entretenimento? porque é que não havemos de entreter? eu ten ho a certeza que não quero distrair! distrair é uma palavra que eu abomino. com as palavras que escrevo espero que quem melê fique mais ligado, mais atento. agora se sou artista ou não, estou-me nas tintas! chega-me amor e uma caneta!

AMOR E UMA GUITARRA
Letra: tiago torres da silva/música: pilar homem de melo

luar de uma nova lua
viver inventando sóis
não sei se é de eu ser tua
mas o corpo flutua
ao ser dois

cantar e o riso da plateia
tocar tocando-me a mim
ter uma boa ideia
pousar os pés na areia
ir sem fim

compor comovida por poder aprender
o amor como vida dentro em mim a nascer
compor
amor

amor e uma guitarra
canções - ondas para ti
e o beijo que se agarra
à cor da nossa cara
e sorri

viver, apenas viver
e ser ainda capaz
de me surpreender
com o dia a nascer
ser a paz

compor comovida por poder aprender
o amor como vida dentro em mim a nascer
compor
amor

Friday, December 10, 2004

SOL DE NÉON


Fui à Culturgest assistir ao espectácilo de circo/dança/teatro "sublimes". Perturbou-me imenso. O espectáculo fala da violência no mundo, dos vários tipos de agressão. Do desemprego forçado pela desumanidade das multinacionais à violência interfamiliar, da agressão a homossexuais e kosovares e chego a casa perturbado pelo que consegui ver e pelo que me escapou. Tenho pouca cultura, pelo menos muito menos do que gostaria de ter e, principalmente no vocabulário da dança há muita coisa que me escapa e que, por outro lado, se antecipa ao meu pensamento. Seja como for a perturbação causada veio lembrar-me porque é que estou na arte, por que é que escrevo! acho que se nós, os escritores, formos testemunhas do nosso tempo e denunciantes, o mundo pode ser um bocadinho melhor. Em tempos escrevi uma canção que o Pedro Luis e a parede gravaram que era uma denúncia às misérias do Brasil que infelizmente são iguais às misérias de Portugal, que infelizmente são iguais às misérias do mundo inteiro.

SOL DE NÉON
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Pedro Jóia

Tem gente que o luar abriga
E dorme mais do que come
Tenta convencer a barriga
Que o sono adormece a fome
Tem gente que por mais que durma
Não deixa de estar acordada
Sabendo que pertence à turma
Das vidas que não valem nada
É gente de Copacabana
Que faz do jornal édredon
Pra quem tanto faz ir em cana
Ou dormir num sol de néon

Tem gente que vive de noite
Tem putas e tem travestis
Com um corpo de silicone
E alma de buritis
Tem gente que brilha no Centro
Como se a rua fosse um palco
E que a polícia leva dentro
Por um pouco de pó de talco
É gente que abre o sorriso
Com a navalha de um batôn
Sabe que viver é preciso
Na fúria de um sol de néon


Tem gente que fuma maconha
Tem gente que pra ser feliz
Prefere morrer de vergonha
Que não morrer por um triz
De noite tem gente que mata
De noite tem gente que morre
Tem gente que come sucata
E afoga a morte num porre
Tem guris de pau de fora
Tem velhos no Trianon
Que querem roubar numa hora
O brilho de um sol de néon

Sunday, December 05, 2004

ÚLTIMA VARINA


Na terça-feira fui ao Fado Maior com alguns amigos, entre eles, a Maria João Quadros que acabou por dar um show de fado e outro de música brasileira absolutamente memoráveis. O público não a deixava calar-se. Foi daquelas noites em que tudo se pões de acordo e a noite acontece... Cantou também a Manuela Cavaco, tocou o Carlos Gonçalves e a dona do Fado Maior, a Julieta Estrela, brindou-me com uma surpresa muito emocionante, largou a cantar poemas meus.
A Julieta Estrela é daquelas mulheres que ama o fado até à última gota. Teve uma bve carreira profissional que interrompeu em 1959 (!!!) e após 38 anos sem cantar abriu o "Fado maior" que é mesmo daquelas casas de fado como eu gosto, sem maneirismos turísticos nem amadorismos vadios, muito fadista!
Bom, a surpresa foi tão grande e tão boa que decidi que hoje punha aqui um fado-fado como homenagem à Tia Julieta. Esta última varina foi gravada pela Quadros no fado das horas.
Ah!, não deixem de ir ao "Fado MAior" no Largo do Peneireiro em Alfama. Pára-se o carro no Largo do Chafariz de Dentro, sobe-se a Rua dos Remédios, vira-se na primeira à esquerda e amarinha-se por ali acima. Vão ver que vale a pena!

ÚLTIMA VARINA
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: J. Bragança (Fado das horas)

Quando a última varina
Se cansar de andar na lota
No dobrar de cada esquina
Vai morrer uma gaivota.

Recordando uma peixeira
No silêncio de um minuto
O mercado da Ribeira
vai vestir um véu de luto.

Quando já não se escutar
O gingar das suas ancas
Eu tenho de as procurar
Entre barcos e tamancas.

E vou onde o Tejo é vaga
Ele corre como um louco,
Rio que em si próprio naufraga
Pra ser mar dali a pouco.

No meu cesto não há peixe
Mas de tanto eu ter cantado
Talvez Lisboa me deixe
Ir apregoar o fado.

Porque uma cidade inteira
Escreveu no meu coração
Que a saudade é uma peixeira
Esquecida do seu pregão.

Wednesday, December 01, 2004

INVO-CANÇÃO


Hoje, como toda a gente sabe, é o dia mundial da luta contra a sida. Por isso, volto ao meu livro "Um S a mais" como homenagem a todas as pessoas que morreram nestas últimas décadas. O meu coração está de luto por todas elas. Tantos queridos amigos e amigas que partiram por causa do HIV - a Sara, o Vasco, o Mário... É para eles este livro, para eles e para quem sente medo... O medo como o preconceito fazem-nos descer ao grau zero do discernimento e é isso que eu peço aos deuses: DISCERNIMENTO! Não, não podemos deixar que o medo nos torne caretas! Todas as conquistas da geração anterior à minha, a geração que se libertou de muitos preconceitos enraizados, têm de ser honrados pela nossa coragem e pela nossa responsabilidade. No "Um S a mais" é sempre o infectado que fala. Nunca há juízo nenhum, opinião nenhuma. Às vezes só nos resta o silêncio. É desse silêncio que nos resta, que nos salva que falo neste livro já com cinco anos mas ainda tão querido por mim. Por isso publico hoje uma letra que nem chega a ser letra. Já foi cantada mas nunca gravada. É quase como se eu escrevesse um mantra sobre o Amor. É contra a posse, contra o medo, contra o ciúme!Porque é assim que o amor deve ser contra todos os vírus, todos os preconceitos, todos os receios. Viva a vida!

INVO-CANÇÃO
Letra e música: Tiago Torres da Silva

Te amar
não te!
amar...

Teu amante
não teu!
amante...

Meu amor
não meu!
amor... amor... amor...

Saturday, November 27, 2004

NÃO QUERO SABER


Eu acho alguma graça a esta minha maneira de ser que me faz revoltado com a dificuldade de ganhar pão dos artistas mas por outro lado me faz querer ser do contra... Não há nada a fazer, quem na arte se vende ao que está estabelecido é que ganha dinheiro. Eu, nesta semana, (acreditem ou não!) ando a pintar a casa de uns amigos de uns amigos de uns amigos porque preciso de arranjar dinheiro para pagar a renda, mas é esse o preço a pagar por esta liberdade enorme que eu tenho de só fazer o que me apetece com quem me apetece e quando me apetece. Não quero saber de lambe-botas, de merdosos, de gente que não percebe a felicidade de lidar com uma preciosidade tão grande como é a arte - as palavras, as imagens, os gestos... Francamente e cade vez mais, quero que as palavras que escrevo estejam ao lado de quem não tem voz... Há uma frase numa canção que a Bethânia canta que me comove profundamente: "vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas"... é isso, escrever para dar voz a quem não pode escrever... Não quero saber de regalias. Quero o poder das palavras. Do resto, não quero saber!

NÃO QUERO SABER
Letra: Tiago Torres da Silva/ Música: Pilar Homem de Melo

Rua a rua vou sair
pra onde for
sem tocar nenhuma corda
que já sei de cor
dou-me ao mergulhar
ou roubo um beijo ao mar
não quero saber
tenho olhos só pra ver

Porta a porta quero entrar
e sei que vou
sem usar nenhuma roupa
que a moda cansou
ando sem andar
e perco-me a cantar
não quero saber
tenho alma só pra ser

E não quero saber
vem comigo
seguindo a gente
que ninguém quer saber